❤ Beijos, conversas, café e Belle Époque | Crônica

em 27 janeiro 2021

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Foto: Pexels
                                                                              

A tarde por algum motivo estava mais que esplêndida naquele verão. Na verdade, Sofia acordou com a sensação de que aquele dia prometia algo mágico! Verões costumavam fazer isso com ela. Sem dúvidas cor, calor, sol, disposição e o aumento da movimentação nas ruas que eram tomadas por inúmeras e distintas risadas e sorrisos era o que mais amava naquela estação. Isso e o fato de poder usar roupas leves que a faziam se sentir flutuar.

Entrou na adorável cafeteria que já havia se tornado sua preferida da cidade e se sentou na mesa de sempre: duas cadeiras de madeira com encostos ornamentais vazados, um arranjo floral pequeno, mas colorido no centro e próxima as grandes janelas de vidro que iam quase do chão ao teto e davam uma visão privilegiada da rua. Aquele lugar realmente a fazia viajar pra uma época que nunca viveu, mas amava. Suspirou contente, os cafés da Belle Époque deveriam ser tão agradáveis quanto. Mais elegantes claro, porém, para ela o café que frequentava fielmente ao menos quatro vezes na semana sabia misturar elegância e simplicidade de forma que não perderia em nada.

Pegou um livro de romance de época para passar o tempo até sua companhia de todas as tardes chegar. Sorriu ao pensar que ele sempre escolhia as mesas mais privadas perto das grandes janelas mais a dentro da cafeteria. Ele apreciava o silencio. Mas como ela sempre chegava primeiro, bem... ganhava a batalha das mesas.

Geralmente usava as tardes no café para revisar documentos e fazer análises do quebra cabeça que as vezes seu trabalho poderia ser, e devia confessar que amava o que fazia. Porém, aqueles dias de descanso estavam lhe fazendo um bem danado. E o melhor era poder ler seus amados romances de época sem se preocupar com outras tarefas.

“O duque tinha um olhar intenso e misterioso, ao qual Emma gostaria muito de decifrar...”

Levantou ligeiramente os olhos castanhos da leitura ao ouvir o sino tocar, no entanto, não retornou a leitura. Observou seu amigo cumprimentar um funcionário que provavelmente o oferecia uma mesa. O viu negar gentilmente com um sorriso, e apesar de estar longe demais para ver, sabia que as covinhas estavam ali também.

Ryan não precisava que o guiassem entre as mesas, sabia exatamente onde eu estaria e não se dava mais o trabalho de perguntar porque sempre as janelas em frente à rua. Um ano e alguns meses de amizade já o tinha feito se acostumar afinal. Acompanhou com os olhos ele caminhar sem pressa até a mesa, despreocupado em como a brisa leve que entrava pelas janelas balançava levemente seus curtos e sempre bem cortados cabelos castanhos. Eram lindos e macios (para a constante indignação dela que se perguntava divertidamente para que um homem precisava de cabelos tão macios e brilhantes).

Seus intensos olhos castanhos se desviaram da mesa para logo em seguida se abaixarem para algo que caiu da mesa que se encontrava a alguns metros de onde ela estava. Ele se abaixou, pegou seja lá o que fosse e entregou a moça que o olhava com olhos de nítido interesse. Bufei resignada. quase sempre tinham alguns suspiros e olhares por onde ele passava. Não as culpava, ele tinha um encanto natural e a gentileza de um gentleman. Ser sua amiga não me fazia cega aos seus encantos no final das contas.

Após uma despedida breve continuou seu caminho até a mesa acompanhado do olhar da mulher que ajudou a pouco. Como disse, não a culpo. São mais de um metro e setenta, acompanhados de boa forma, postura firme e gentileza. Quase sempre estava vestido formalmente devido ao trabalho, o corte do blazer azul marinho o deixava com uma elegância casual. Ele poderia ser facilmente o duque do romance em minhas mãos. Abafei a risada ao imaginar o pronome de tratamento “sir” antes de seu nome. Estava lendo muitos livros de época.

Coloquei o livro no canto da mesa me levantando e o cumprimentando com um abraço apertado. Seu perfume amadeirado invadiu minhas narinas trazendo um sentimento bom de conforto. Ele usava sempre esse mesmo perfume e eu amava, poderia reconhecer a metros de distância. Ele olhou para livro no canto da mesa e sorriu ao constatar minha leitura.

- Já é o terceiro romance de época em duas semanas. As férias estão sendo boas pelo visto.

Sorri zombeteira ao lhe dizer que meus sonhos estavam sendo realizados. Após fazermos os pedidos e contarmos as novidades dos últimos dias, estávamos em meio a risadas por alguma observação sobre como mudávamos de assunto aleatoriamente. Eu amava nossas conversas! Íamos de assuntos políticos, curiosidades irrelevantes, reflexões profundas e acontecimentos pessoais ao último documentário do Discovery em minutos. Eu sentia que, ao seu lado, podia ser eu mesma em todas as minhas formas sem nenhum receio e ficava feliz em ver que ele se sentia assim também.

Nossa amizade começou meio tímida aqui nesse mesmo café e aos poucos já estávamos dividindo muito mais que uma mesa no “La Vennue”. Minhas tardes foram coloridas mesmo em dias de inverno chuvosos que eu detestava (e ele amava diga-se de passagem) apenas pelo fato de dividir a mesa com ele enquanto conversávamos e trabalhávamos em uma mistura engraçada.

Após uma longa tarde de conversa e trabalho (trabalho da parte dele como fiz questão de provocar e brincar a tarde toda), ele levantou o braço pedindo a conta ao garçom. Braços fortes, com um aperto firme. Conseguia perceber isso pelo seu abraço, era inevitável pensar em como deveriam ser ainda mais firmes ao segurar alguém que seja mais que uma amiga. Balancei rapidamente a cabeça para afastar esses pensamentos indiscretos e frequentes que venho tendo nos últimos meses. Ora essa, somos amigos. O que estava acontecendo comigo ultimamente?

Saímos do café e seguimos em direção a uma praça grande e florida. Era nosso ponto de despedida, morávamos em lados opostos da cidade. No entanto, tínhamos ainda mais assunto que o normal naquele dia. Talvez pelo fato de termos ficado duas semanas sem nos vermos por causa de sua viagem de férias. Era bom estar com ele outra vez, nem havia me dado conta que a saudade era maior do que eu pensava.

Ao perceber que anoitecia me despedi com um aperto no coração. Queria ficar mais tempo em sua companhia (queria mais do que era normal uma amiga querer, constatei sentindo o coração retumbar em meu peito). Após um longo abraço de despedida, lhe dei as costas ainda agitada com meus sentimentos e pensamentos inusitados. Porém, escutei sua voz grave me chamar quase como num sussurro. Oh, céus! Esse homem vai me fazer ter um enfarto.

Virei-me lentamente mirando seus olhos profundos e senti-me hipnotizada. Sentia-me dentro de um dos meus amados romances, ironicamente pensei que entendia Emma (heroína do livro que lia mais cedo) muito melhor agora. Ele definitivamente poderia ser um duque. Pisquei algumas vezes e quando achei ter colocado meus pensamentos em ordem, levantei meu olhar novamente. Apenas para vê-lo se aproximar lentamente, como um leão indo de encontro a sua presa.

Esqueça o coração retumbante, eu não sinto minhas pernas! Ele não vai fazer o que penso que vai, certo? Constato que sim quando sinto sua mão forte em minha cintura e seu rosto a centímetros do meu. Constato também que não tinha noção de como queria isso até o momento que seus lábios tocaram os meus.

Esqueço como se respira por alguns segundos, meus sentidos estão entorpecidos e embaralhados enquanto sinto seu braço me trazer para mais perto e uma de suas mãos pousar em meu rosto. Seus lábios são gentis sobre os meus e todo meu corpo reage eletricamente ao seu. Se me perguntassem meu nome nesse exato momento eu não saberia responder.

Naquele momento tudo se encaixava e... céus! Parecia certo, era certo. Eu passei minha vida inteira esperando por isso sem nem perceber... esperando por ele. Esperando por nós.

Nos separamos lentamente com os olhos cravados como adagas um no outro. Procurando entender com o olhar as emoções um do outro. Ah, querido... você consegue? Consegue ver em meus olhos nesse momento o quanto te quero?! 

Após mais alguns minutos aproveitando o calor um do outro, nos despedimos sabendo claramente que queríamos ficar mais tempo ali, na nossa bolha. Estávamos onde mesmo? Claro, na praça... a caminho de casa.

Deitada em minha cama constatei que essa foi uma belíssima tarde. Houve beijos, conversas, café... não necessariamente nessa ordem.

Ok, essa já era a décima vez que repassava o que aconteceu em minha cabeça. E em todas as vezes era impossível conter os suspiros, sorrisos e o tom avermelhado que podia sentir em meu rosto. Já eram quase meia noite, eu precisava dormir, mas a empolgação não me deixava pregar os olhos. Fechando-os e sorrindo bobamente mais uma vez, eu pensei que nada, nada mesmo, parecia mais certo que aquele beijo. A não ser que eu precisava que existissem muitos outros... infinitos outros.

4 comentários:

  1. Ryan, assim como Dom Quixote que fantasiava inúmeras vivências ao lado de sua amada Dulcinéia, desfrutava das mesmas fantasias mirabolantes em seus dias no café, seja nos verões ou invernos (os invernos eram melhores... provavelmente...suponho rsrs).

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    1. Oiê! Creio então que Ryan e Sofia ficaram imensamente felizes pelas fantasias terem se tornado reais ♥️ Sofia com certeza votaria nos verões, mas com Ryan ela podia amar até mesmo os invernos rsrsrs...

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  2. Que história incrível! Creio que Ryan sentiu por muito tempo o mesmo que Sofia. Já passamos todos por isso hahahahahaha. Que seus textos continuem doces como as gostosuras do La Vennue e delicados como o toque de um amor novo (ou não tão novo assim) <3

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    1. Oiê João! Obrigada pelo comentário 🥰 são sempre doces e muito encorajadores, como uma tarde de verão com doces no La Vennue <3

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