❤ Em algumas vezes até o teimoso coração escuta a mente | Crônica

em 21 abril 2020

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Foto: Pexels

Se aquecendo debaixo das cobertas enquanto observava a janela ela entendeu porque sempre preferiu o verão. Os dias ensolarados com ocasionais chuvas rápidas e refrescantes ejetavam uma dose de animo e bem estar a mais em seu humor, tinha que admitir. Não que deixasse de ser como uma chaleira prestes a explodir em toda a energia e animação que eram praticamente sinônimos do seu nome durante o restante das estações, afinal, uma esfriada no clima ainda não era suficiente para diminuir toda a energia em ebulição que a criativa, sorridente, elétrica e por vezes exagerada Amália tinha. Pelo menos era o que seus amigos sempre diziam, e sorrindo por lembrar como eles sempre afirmavam isso com um misto de sorrisos zombeteiros, cúmplices e carinhosos enquanto observava o tempo fechado do lado de fora, ela sequer ousou discordar. No entanto, não podia negar que no verão sentia como se uma dose extra de endorfina fosse liberada em seu corpo. Riu novamente com a última observação do seu cérebro agitado.


Contudo, o outono e inverno desse ano não foram uma dupla muito favorável ao bom humor e animação característicos de Amália. Não mesmo. Quer dizer, desistir (finalmente! Pensava seu cérebro que fazia questão de lhe alfinetar) de um amor a muito não reciproco não deveria ser tão doloroso quando sua mente e razão já indicavam há tempos à necessidade de fazê-lo. Porém, aparentemente seu coração teimoso não concordava com ela, pois doía, céus como doía. E sequer entraria no mérito de como era irônico seu coração resolver erguer a bandeira branca para a guerra que travava com sua razão e declara-la vencedora justamente em setembro. Ah! Claro, o outono sempre precedia o cinzento inverno e este por sua vez estava tão intenso e cinza nesse ano quanto os sentimentos que tentava deixar para traz.

Quem diria que os sentimentos que a faziam flutuar e suspirar pelos cantos seriam os mesmos que a deixariam com um irritante nó na garganta e a fariam se sentir sem chão de uma maneira que nada tinha a ver com flutuar de felicidade? Em meio aos seus devaneios chegou a conclusão de que amar é incrível e belo, que não há nada de errado em querer dar o seu amor a alguém, esperar alcança-lo e receber também amor em troca. E então percebeu a palavra chave bem no final do seu devaneio: também. Touché! Ali estava a palavrinha que naquele contexto indicava reciprocidade. Palavra bonita inclusive, com certeza ia favorita-la não apenas no seu vocabulário, pensou Amália arqueando as sobrancelhas castanhas e bem delineadas. Começava entender a linha tênue entre perseverança e teimosia.

Quer dizer, tinha que admitir que nos último meses estava sendo teimosa. Sabia que as conversas sempre iniciadas por sua parte, mas levadas sem muita intensidade por ele ou as tentativas de aproximação e demonstração dos seus sentimentos sempre deixadas de escanteio eram um ótimo e claro sinal para esquecer por um momento o que o coração queria e dar ouvidos a sua mente. Sim, sabia que a partir dessas observações o que sua mente lhe dizia era bem mais inteligente e sensato. O problema era explicar isso para o seu derretido coração que a essa altura suspirava com direito a trilha sonora e mini corações flutuantes toda vez que seus olhos pousavam na figura alta, gentil, divertida e extremamente cativante que Amália jurava ter saído de um dos seus livros de romance.

Mas se tinha algo que intrigava a mulher de cabelos castanhos médios, deitada confortavelmente na sala de seu apartamento ainda com seu pijama azul era quando exatamente se cansou de estar solo em um romance que deveria ter dois protagonistas? Foi acontecendo tão gradualmente que não percebeu quando passou de mocinha apaixonada para diretora exigente e gritou que cortassem as gravações. Não sabia quando, mas ainda bem que trocou os papeis. Depois que o coração entra em convergência com a mente e entende que a teimosia só vai machucar ainda mais, as coisas ficam um pouco mais fáceis. Não indolores, mas de alguma forma mais fáceis.

Sorriu aos constatar que era libertador. Libertador saber que não iria mais fantasiar diante as mínimas coisas e atitudes dele que ela enfeitava como uma árvore de natal com possíveis significados favoráveis aos seus sentimentos, mas que no final era apenas sua imaginação fértil trabalhando. Era libertador saber que apesar de doer estava amadurecendo, se priorizando, que logo não precisaria engolir um bolo de sentimentos toda vez que o visse e que seu coração estava abrindo espaço para que algo bom e reciproco chegasse no devido tempo. Um fato era perceptível e animador: Doía menos agora que no início do outono em setembro. Sentia-se como uma árvore que viu suas folhas caírem no outono para depois enfrentar um rigoroso inverno, mas que fortaleceu suas raízes e estava pronta para que a primavera chegasse e revelasse suas mais belas e perfumadas flores. Afinal as evoluções da vida aconteciam assim, de dentro para fora. Amália sentiu vontade de levantar e fazer a dancinha da vitória no meio da sala, mas o frio a fez permanecer quente entre as cobertas por mais alguns minutos.

Pausou Missão Madrinhas de Casamento que já estava na metade, amava esse filme desde a adolescência e as comédias românticas estavam sendo ótimas aliadas nesse inverno.  Levantou-se do sofá empurrando a coberta creme e felpuda para o canto e foi até a cozinha verificar se o leite já havia fervido e se o chocolate meio amargo que tanto gostava já havia derretido para enfim poder se deliciar com um chocolate quente, sua bebida preferida no inverno. Acrescentou creme de leite e alguns marshmallows que pasmem tinham sobrado desde o natal. O que era um grande feito para alguém que amava doce como ela e todo o restante da sua família, exceto seu irmão mais velho que ela acreditava piamente que deveria ser pesquisado pela NASA, quer dizer, quem não gosta de doces?

Quando voltou a sala Amália percebeu que fracos raios de sol entravam através da grande janela de vidro pela primeira vez no dia ainda que já fossem três da tarde. Sorriu aos constatar que o inverno daqui a dois meses teria que ceder espaço para a primavera em março, que por sua vez precedia o verão. E Amália não via a hora de ir até Rue Saint-Louis e trocar os chocolates quentes por sorvetes de baunilha da Berthillon...

Um comentário:

  1. Me senti libertado quando li seu texto, continue sempre!
    Obrigado por melhorar a minha noite. Forte abraço! ;)

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